"A vitória brilhará àquele que tímido ouse". Agostinho da Silva
Domingo, 25 de Abril de 2010
A minha intervenção - 25 de Abril

Exmo. Sr. Presidente da Assembleia Municipal e Exmos. elementos da Mesa,

Exmo. Sr. Presidente da Câmara Municipal e Exmos. Srs. Vereadores,

Exmos. Srs. Deputados,

Digníssimo Público,

 

É com orgulho que uso pela 1ª vez da palavra nesta Assembleia. Mais privilegiada me sinto por, em nome do PSD, me poder dirigir a vós na cerimónia comemorativa do Dia 25 de Abril, o dia das várias Liberdades.

Nasci bem depois de 1974, já no culminar da década de 80. Por isso, o retrato que vos traço é o de quem apenas viveu e conheceu a Democracia. Democracia essa almejada e conquistada depois de tantos anos de silêncios forçados de uma Democracia aniquilada pelos grilhões da Ditadura.

O Dia 25 de Abril representa a concretização das várias Liberdades, preconiza uma nova oportunidade para um país até, então, alheado e imune aos ventos do desenvolvimento que já se faziam sentir nos países vizinhos. O ano de 1974 marca a refundação da República – que celebra este ano o seu centésimo aniversário – mas marca sobretudo o advento da Democracia, conceitos que talvez por isso me pareçam inevitável e incontornavelmente inseparáveis.

Reinventámos a liberdade de expressão, falha máxima do regime deposto no dia 25 de Abril, em que à diferença de opiniões se contrapunham as amarras policiais e o imperioso silenciamento da discordância. Mas, a par desta conquista muitas outras se seguiram: consagrou-se a liberdade de iniciativa económica que é de alguma forma a materialização do direito ao desenvolvimento da personalidade dos indivíduos. Ademais e de elementar importância, democratizámos o ensino, com a inerente mobilidade social que a mesma possibilita, desta forma consagrámos a liberdade de ascensão e progressão social. Abril trouxe consigo o ressurgimento da liberdade artística, criativa e recreativa, até aí coarctadas pela intolerância do poder instalado. De ímpar relevância, consagrámos a liberdade de reunião e de associação que é, de resto, uma pedra basilar de um País Democrático.

Durante estes anos, a Marinha Grande teve um papel central na contestação ao regime asfixiante de então. Esta é, aliás, uma postura bem característica das gentes da Marinha, onde orgulhosamente me insiro. Independentemente da cor política, independentemente das tendências ideológicas ou independentemente das convicções partidárias, é intrínseco aos marinhenses o sentido de justiça que, ao longo da nossa história, nos fez sempre pugnar pelos nossos direitos, liberdades e garantias.

Mas, numa intervenção em que se pretende assinalar a efeméride do Dia 25 de Abril, é impensável deixar de reflectir sobre o estado actual da Democracia.

Hoje em dia, saímos à rua e não mais existe o medo de outrora, face à intransigência do regime. Todavia, algo não andará bem quando, em cada rosto vislumbramos a consternação e o receio pelo amanhã, assombrado pela incerteza de uma profunda crise que compromete toda a sociedade. Primeiramente, a crise económica que consigo trouxe a crise social. Seguiram-se a crise de valores, a crise de referências e a crise de convicções que de, há vários anos a esta parte, se apoderaram da maioria de nós. Deixámos de acreditar. Olhamos agora com cepticismo para o que se avizinha.

A Democracia está doente quando a sociedade se demite da sua função, desconhece o seu papel, quando assistimos a uma absoluta descredibilização do sistema político-partidário e dos agentes políticos. Para muitos, aqueles que elegemos deixaram de ser aqueles que nos representam. Naturalmente que podemos escamotear e ignorar esta realidade, negando-a, rejeitando-a ou simplesmente minimizando os seus efeitos.

Mas, dessa forma não inverteremos a rumo de descrença que temos vindo a trilhar. Assim acentuaremos o bafio que emana do actual Estado das Coisas.

É imperioso mudar de Postura, refrescar mentalidades, reciclar políticas, criar oportunidades para as gerações futuras. Libertar o futuro das novas gerações, fortalecer a sociedade civil. A um Estado centralista e mau prestador, deve substituir-se, à luz do princípio da subsidiariedade e na medida da necessidade e da boa execução, um poder local forte e capaz de dar uma resposta aos problemas do dia a dia.

Os elevados níveis de abstenção que, ano após ano, se verificam representam o desinteresse, mas ainda mais preocupante, a descrença no sistema representativo e nas soluções apresentadas. Destaca-se o particular desinteresse e alheamento, das novas gerações, entre as quais, a minha, da participação cívica e política, e um profundo desconhecimento dos nossos direitos e deveres.

Para fazer face a esta realidade é fundamental mobilizar toda a sociedade civil.

A Partidocracia até agora instalada esgotou-se. Se por um lado a participação política não se circunscreve e não se esgota nos partidos políticos, nos últimos anos, estes mesmos partidos não se souberam adaptar aos novos tempos, e não souberam erradicar os vícios que corroem a nossa Democracia. A sociedade civil anseia por mais transparência dos agentes políticos. É fundamental abandonar promessas que não se podem cumprir, senão continuaremos a ver nos discursos redondos e irreais aquilo que, nas palavras de Irene Lisboa, mais não seria do que “uma mão cheia de nada, outra de coisa nenhuma”. Quem se dedica a servir os outros, quem elege a Causa Pública como prioridade tem que ser exemplo de credibilidade, de honestidade e de dedicação. Porque só assim restauraremos a confiança do Povo.

36 anos depois do 25 de Abril, os partidos políticos não podem continuar a ter o mesmo tipo de discurso, não podem continuar a apresentar as mesmas soluções para problemas que, pela evolução e pelo decorrer de 3 décadas, não podem, mas sobretudo, não são os mesmos.

Quando atravessamos uma profunda crise económica e social que compromete o futuro de todos nós é inaceitável afirmar que se concretizaram plenamente os ideais de Abril.

Passadas 3 décadas ainda há muito a fazer, há novas conquistas a fazer: em primeiro lugar, por respeito a todos os que lutaram para que vivêssemos hoje num regime democrático. Mas também pelos que, nascidos depois de Abril, acreditam, desejam e anseiam por um país melhor.

Atendendo aos desafios que temos pela frente, saibamos pôr de parte as nossas diferenças ideológicas e as nossas discordâncias partidárias, quando em causa está o Bem Maior de Todos, a nossa Democracia. E, que a Democracia seja a nossa Pedra Filosofal.

Muito Obrigada

 

Margarida Balseiro Lopes

25 de Abril 2010

Salão Nobre da Câmara Municipal da Marinha Grande



publicado por Margarida Balseiro Lopes às 13:12
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Sexta-feira, 2 de Abril de 2010
Fenomenal


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publicado por Margarida Balseiro Lopes às 15:27
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